Depois de 41 anos de história, o Rock in Rio decidiu apostar na transformação mais radical que já ocorreu no Palco Mundo. Pela primeira vez, toda a fachada frontal da estrutura passou a funcionar como um único painel de LED de 2.400 metros quadrados, um formato inédito. Não é exagero dizer que o “telão” deixou de ser apenas um recurso de apoio visual para virar, ele mesmo, o protagonista da cenografia.
Ana Biavaschi, diretora de criação e cenografia do festival, explicou à Billboard Brasil que a ideia nasceu do encontro entre a demanda do público por experiências mais imersivas e o amadurecimento da tecnologia de LED.
“Não queríamos apenas aumentar telas. Queríamos transformar o palco inteiro em uma superfície viva, capaz de mudar completamente de identidade a cada apresentação”, afirma.
O projeto levou meses de estudos, simulações e testes técnicos, reunindo cenógrafos, arquitetos, engenheiros e produtores da Rock World. O maior desafio, segundo a diretora, foi conciliar uma área tão grande de LED com uma estrutura que precisa resistir a vento, chuva e sol e ainda funcionar por horas seguidas sem falhar.

Foto: Josué Luz/ TV Globo.
“A maior tela que as pessoas terão visto na vida”
A frase é da própria organização. Em julho, ainda durante a montagem das estruturas, a diretora de marketing Ana Deccache definiu o novo Palco Mundo dessa forma, durante uma visita técnica à Cidade do Rock. Para ela, a mudança é quase inevitável num mundo em que “a gente olha pra telas o dia inteiro”.
Ela também deixou claro o real objetivo por trás da reformulação: não é só espetáculo visual pelo espetáculo, mas dar liberdade criativa para cada artista construir sua própria narrativa em cima da estrutura.
“Cada um dos artistas que vai ocupar cada slot vai experimentar com aquelas possibilidades visuais uma narrativa proprietária dele, que vai fazer sentido para aquela música, aquele show, aquele festival, aquele fã”, completou.

Nem todo mundo usa o telão da mesma forma (e isso virou polêmica!)
Só que a promessa de um palco que muda de identidade a cada artista esbarrou numa questão prática: nem todos os shows contam com equipe especializada em efeitos visuais para ocupar a estrutura inteira. Quem não investe nesse tipo de produção acaba tendo sua apresentação exibida apenas em duas faixas laterais do telão, enquanto a parte central mantém a textura visual do antigo Palco Mundo.
A discussão que se formou nos primeiros dias do festival não é sobre a ausência de transmissão, mas sobre essa diferença de tratamento visual entre quem chega com uma produção pronta para aproveitar os 2.400 m² e quem não chega. Um detalhe técnico que, de fora, pode até passar despercebido, mas que virou assunto entre quem acompanhou de perto as primeiras noites, inclusive entre artistas que se manifestaram sobre isso antes de subir ao palco.
E depois do primeiro fim de semana?
Confesso que fiquei curiosa para saber se a promessa se sustentaria fora do discurso institucional. E, pelo que se viu nos primeiros dias, o telão cumpriu boa parte do que prometeu e virou tema de conversa por si só. Artistas com escalações mais tecnológicas conseguiram usar a estrutura para criar climas bem distintos entre um show e outro no mesmo palco.
E aqui faço um destaque especial para o show do Gilberto Gil, que contou com visuais que abraçaram o público, de certa forma essa ferramenta fortalece essa relação com o público.

Foto: Rock In Rio via X.
No fim das contas, o novo Palco Mundo parece ter conseguido o que se propôs: fazer o público olhar para o palco como algo que muda, se transforma e surpreende a cada show. Resta saber se, com o avanço dos próximos fins de semana e headliners como Stray Kids, Twenty One Pilots e Halsey a mesma estrutura vai conseguir sustentar o impacto que teve na abertura, ou se vai virar, como tanta novidade tecnológica de festival, um detalhe que a gente para de notar depois do susto inicial.