Colunas | Publicado por Viviane Loyola em 13 de dezembro de 2018.
O rock dos 80: eu não sei mais o que pensar sobre isso

Escrevo sobre música de modo intuitivo. Vasculho memórias afetivas, lembro canções que em algum momento me fizeram bem. Tento saber o contexto, relacionar o artista, a obra, a história, entender porque ouvi uma música e me apaixonei e depois não quis ouvir mais.  Ou pode ser que ouça qualquer dia e reviva a coisa toda. Ou pode ser que me divirta e ache graça por um dia ter gostado de um artista que hoje não me diz nada. 

É assim com o rock nacional dos anos 80. Eu fui fã de comprar revista e pôster do RPM, de fazer pirraça para ir ao show do Capital Inicial porque jovenzinha não tinha dinheiro para o ingresso nem autorização dos pais. Decorei todas as letras de músicas do Legião Urbana. Um feito e tanto porque as letras nunca acabam. Assisti a um show do Ultraje a Rigor no Canecão, Rio de Janeiro. Foi minha primeira vez no Canecão e foi uma emoção engraçada. Hoje olho o passado, o movimento musical das bandas, sabendo obviamente elas não são iguais, e me pergunto porque fui fã.  Ou será me decepcionei com o que veio depois? Ou será que muito nova fui capturada pela onda porque numa era pre-internet se conhecia pouco de outros estilos musicais? Será fui influenciada pelo marketing milionário das gravadoras?

Na verdade o rock nacional foi um sopro de liberdade no contexto dos 80. Só se ouvia música brega na televisão em programas de auditório que ocupavam o sábado e o domingo todo.  Imaginem que não tinha tevê a cabo nem internet. Éramos reféns do mau gosto da tevê aberta, foi assim até os anos 90 com pagodeiros de sunga na banheira do Gugu, e para uma pré-adolescente tudo parecia antigo, obsoleto. Uma estética ultrapassada nas roupas, nos cenários, nas canções. Ouvia rádio para acompanhar as novidades.  As bandas começavam a tocar primeiro nas rádios jovens para depois virar atração de tevê.  Quando surgiram na tela foi uma explosão de alegria – eram jovens e belos, pareciam rebeldes, tinham letras de protesto, solos de guitarra, cabelo grande. Para quem só ouvia música brega-romântico em toda parte, e cantores vestindo terno, eles pareceram muito diferentes da média e provocaram uma histeria coletiva. Muita gente copiando cortes de cabelo, lotando shows, comprando os discos, fazendo plantão na porta dos hotéis para verem os ídolos.  Não cheguei a tanto. Ainda bem. Acho teria um pouco de vergonha adulta.

Entendo o sucesso do rock nacional nos 80-90 pelo viés do tempo vivido. Estávamos saindo de uma ditadura de duas décadas. Queríamos criticar a corrupção, contestar o sistema, falar coisas que nossos pais haviam sido proibidos, mudar o país. Não que as bandas quisessem tudo isso, ou tivessem poder para tanto, mas era inspirador ouvir o Legião Urbana cantar Geração Coca-Cola: “somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, geração Coca-Cola”.  E mais tarde aquela pergunta-refrão que permanece tão atual: “Que país é esse?”. Também era muito bom ouvir Cazuza, assistir ao filme Bete Balanço com trilha dele e ao clipe da música Exagerado, primeira vez que me recordo de um clipe de um artista nacional em que a questão da homossexualidade era retratada, embora nada muito explícito conforme os padrões da época.

Era bom pertencer à turma do rock e tentar romper com alguns modelos de comportamento. Frequentemente algum desses roqueiros era preso, sempre com a justificativa de porte de drogas, e os pais e avós dizendo que estes eram um bando de drogados e os fãs saindo em sua defesa. Arnaldo Antunes foi preso. Não sei antes ou depois, pouco importa se a memória falha, o Titãs gravou: “Polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia”. O espirito era esse de questionar formas de repressão, de perseguição, e todo autoritarismo que ainda se manifestava como um resquício do período militar. Além disso, havia o resgate de autoestima, uma necessidade de fazer rock em português, de falar um pouco das nossas coisas, um repertório próprio que superasse os “covers” tão comuns nos shows. Nos anos 70 vários artistas brasileiros foram exilados e censurados e o que chegava a muitas pessoas eram as músicas de fora ou mesmo cantores brasileiros cantando em inglês.

Havia claramente bandas que se mostravam mais comerciais e outras tidas alternativas. Eu me lembro agora de Inocentes e Plebe Rude, duas bandas de Brasília de som mais pesado, e claro havia os mega-sucessos que tocavam sem parar. O RPM foi tema de Globo Repórter e vendeu milhões de discos, ganhou o Disco de Ouro, uma premiação que se dava aos recordistas de vendas no ano. Esse RPM que nunca conseguiu repetir o mesmo sucesso dos dois primeiros discos e depois se separou e voltou e se separou de novo e hoje aparece tristemente envolvido em uma pendência na justiça sobre o direito de usar o nome da banda entre o vocalista Paulo Ricardo e os demais integrantes Fernando Deluqui, Luiz Schiavon e Paulo Pagni.

Quando digo que talvez tenha me decepcionado com o que veio depois estou falando das brigas e separações das bandas, da repetição do repertório, das perdas que tivemos. Perdemos Cazuza e Renato Russo, na minha opinião os dois melhores desta geração. Vimos Leoni e Paula Toller se separarem e Hebert Vianna sofrer aquele terrível de acidente de ultraleve. Ele sobreviveu, se recuperou de modo extraordinário, mas tudo em determinado momento começou a ficar estranho e triste.

Os discos viraram acústicos MTV em um movimento sem fim de revival. Muitas bandas perderam a vitalidade ou deixaram de existir. Surgiram outras bandas para concorrer, a era dos discos de ouro acabou, e eu fui me afastando pouco a pouco dos meus ídolos de menina. Em grande medida, chato dizer isso, fui deixando de ouvir e de gostar de muita coisa, achando datado, com aquele tecladinho ao fundo. Escrevo essa coluna um pouco por esse motivo, para fazer as pazes com essas bandas de passado tão incrível, para prestar uma homenagem ao que hoje sei foi um movimento musical importante e oportuno, o rock nacional dos 80 que marcou uma geração inteira. E também para contextualizar, para dizer que nada nunca pareceu tão transgressor do que o rock. Para explicar que depois de tanto tempo de ditadura só poderia mesmo vir uma onda roqueira, é natural que seja assim. Às vezes nem era tão transgressor, mas parecia ser, queríamos acreditar em algo e dançamos e cantamos juntos estes refrões: “procuramos independência acreditamos na distância entre nós” (Capital Inicial), “fazer amor de madrugada, amor com jeito de virada” (Kid Abelha), “estamos bem por um triz pro dia nascer feliz o mundo inteiro acordar e a gente dormir, dormir” (Barão Vermelho).

Hoje muitos artistas roqueiros dos 80 continuam na ativa. Gosto de algumas coisas e outras nem tanto, mas não sou exatamente uma especialista. Sinto a música e falo do que sinto. Sou uma apaixonada por música. Alguns não são mais roqueiros, fazem parte de bandinhas de programa de entrevista, outros não têm mais produção de inéditas e tantos me decepcionaram politicamente, mas isso é muito pessoal, não deveria ter nada a ver com a música e acaba tendo para mim porque sou assim. Cada um é de um jeito. Alguns escreveram livros. Tony Bellotto, Titãs, inventou um personagem que amo, o detetive Remo Bellini. Paulo Miklos, outro integrante do Titãs, está na novela das nove e fez papeis memoráveis no cinema. Gosto dele atuando. Leo Jaime até outro dia participava de um programa de debates no canal GNT e também fez novela.

Eles estão por aí e a música deles está em mim e trinta anos depois toca ao fundo enquanto escrevo e me questiono o quanto gostei, se deixei de gostar, se eles mudaram, se eu mudei, se apenas o tempo passou.  Porque o tempo passa para todo mundo e a gente vai colecionando momentos. Estas bandas me fizeram cantar com um escova de cabelo em frente ao espelho.  Não sei se a escova servindo de microfone é bom ou ruim. Só sei que foi tudo muito real, foi lindo. 

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