Música | Publicado por Viviane Loyola em 5 de setembro de 2018.
Raça Negra: o pagode dos 90 no domingo de manhã

Outro dia quis ouvir uma música bem feliz que me fizesse dançar e cantar junto. Era um domingo frio e nublado destes em que a música é necessária para levantar da cama e começar o movimento. Logo me lembrei como é impossível ficar parada ouvindo Raça Negra: “O amor entra e faz morada, revolução por dentro, é o sol da madrugada, sentimento que aquece e acalma o coração e a alma”.

A música Dono do Seu Beijo, que me pegou de jeito na manhã de domingo, foi lançada em 2013 pela Aviões do Forró e ganhou registro ao vivo do Raça Negra no último trabalho do grupo, o álbum Raça Negra & amigos II, com a participação de Xand Avião vocalista da banda cearense de forró eletrônico. O show, realizado pelo Raça Negra no Espaço das Américas, São Paulo, em maio de 2017, contou ainda com a participação de nomes como Bruno & Marrone, Chitãozinho & Xororó, Eduardo Costa, Leonardo, Zezé Di & Luciano, Thiaguinho, e deu origem a uma turnê que passou por Goiânia, Brasília, Belo Horizonte, Boa Vista, Belém, Manaus, Rio de Janeiro, Uberlândia, Chapecó, entre outras cidades, e segue na estrada com shows agendados até o fim de 2018.

O Raça Negra, grupo paulista fundado em 1983, liderado pelo vocalista Luis Carlos, grava seu primeiro disco em 1991 e se destaca em um movimento que ficou conhecido como o pagode dos anos 90, composto por grupos como Molejo, Soweto, Negritude Júnior, Só pra Contrariar, Art Popular e Katinguelê. Tido tantas vezes pela crítica como uma onda comercial, tratado de modo depreciativo como um subproduto do samba de raiz, o pagode dominou a década de 90. Atingiu em cheio admiradores nas classes C e D, estourou nas rádios, debutou em programas de auditório, se espalhou atraindo fãs de outras classes sociais e faixas etárias.

Hoje o Raça Negra é trilha obrigatória em blocos e bailes de carnaval que se especializam em reviver o axé e o pagode antigo. Quem tem entre 25 e 35 anos foi criança ou adolescente na década de 90, filhos do pagode saudosistas que entre brincadeiras e o papo cult de boteco relembram as músicas e ressignificam o que foi o movimento do pagode salteado de hits que grudaram na cabeça. Você sabe de cor as letras de Caçamba, Inaraí, A Barata e Cheia de Manias?  Se sabe, querendo ou não, você é um filho do pagode dos 90 e vai cantar comigo Cheia de Manias.

Desde o lançamento do seu primeiro álbum, em 1991, o grupo emplacou uma sequência de um disco por ano, sempre dando nome Raça Negra aos discos, acrescentando a informação do número do volume a cada lançamento. O Volume 6, 1995, contém possivelmente o maior sucesso da carreira do grupo: a música É tarde demais rendeu ao grupo uma citação no “Guinness”, o livro dos recordes, como canção mais tocada em rádio em um único dia, 600 execuções: “Veja só você, depois de me perder, que pena, você não quis ouvir, você não quis saber, desfez do meu amor, que pena, pena amor”.

Com o refrão meloso e fácil de decorar, a música traz à tona uma outra faceta dos grupos da época que não as músicas animadas para se dançar no domingo. O pagode romântico, as letras derramadas falando de amor que embalaram alguns primeiros beijos.

Na discografia o Raça Negra acumula um total de 100 trabalhos entre discos de estúdio, singles, DVDs ao vivo e compilações diversas. No site da banda (bandaraçanegra.com.br), destacam a curiosidade de serem a primeira banda de samba a tocar numa rádio FM, com a música Caroline, e de inserirem nas gravações instrumentos incomuns ao pagode da época, como o naipe de metais. Os números impressionam: 12 vinis, 28 CDS, 4 DVDS, e mais de 36 milhões de discos vendidos ao longo da carreira.

Esse é o Raça Negra, fenômeno musical dos anos 90 ainda em atividade e que me faz querer dançar despretensiosamente no domingo de manhã. Quem vem? 

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