Colunas | Publicado por Viviane Loyola em 27 de agosto de 2018.
#MemóriaPop: Madonna, o sexo e a música   

É sempre bom conhecer mais sobre artistas e bandas com bastante tempo de atividade e que continuam ativas ou influenciando os novos talentos, né? Esse é o objetivo da coluna Memória Pop. A cada semana um artista diferente, sua biografia, discografia, reflexões variadas sobre estilo, trajetória e legado dentro do pop.

Na década de 80, no auge da epidemia de Aids e no governo de Ronald Reagan, numa época conservadora em que a identidade jovem se reformulava, Madonna apareceu sacudindo geral.  

Em 1983 Madonna lançou seu primeiro álbum, Madonna, e duas de suas canções, Lucky Star e Holiday, fizeram enorme sucesso nas rádios. Em sua primeira fase, Madonna adotou um estilo dançante, vibrante, e os adolescentes eram o público-alvo.  

Seus primeiros videoclipes, apresentados na MTV, canal recém-criado e fundamental para Madonna, se destacaram pelo visual transgressor e uma moda inovadora que mesclava ícones punks, como os óculos escuros que usou no videoclipe Lucky Star, correntes na cintura e roupas pretas, a poses eróticas, piscadelas para a câmera e acrobacias com bailarinos. Um comportamento sexual desinibido e libertário para os padrões de época, ainda mais para a sexualidade feminina. Madonna torna-se um ícone sexual, identidade que marca os primeiros anos de carreira da cantora. 

Madonna originalmente foi dançarina nos clubes noturnos de Nova York, mas graças à edição e ao enquadramento de seus videoclipes se destacou como uma mulher jovem, livre, confiante; a dança serviu à imagem de atraente e sedutora. Deixou de ser apenas a dançarina para converter-se em um símbolo de moda e comportamento que propagou o uso das meias soquetes, das botas pretas de cano curto e de emblemas religiosos como os crucifixos. 

Propôs temas polêmicos como as relações inter-raciais. Em seu vídeo Bordeline, Madonna canta para um jovem hispânico a quem tenta seduzir. Na sequência flerta com um fotógrafo anglo-saxão que a corteja. Acaba por rejeitar os dois na intenção quem sabe de expor o controle sobre a própria imagem e sobre o desejo. Nesse vídeo, Madonna apresenta diferentes tipos de trajes e cores de cabelo, demonstrando que sua identidade é algo que pode ser modificado a qualquer momento.  Ao propor relações inter-raciais, transpõe barreiras étnicas ao mesmo tempo em que atrai brancos, hispânicos e negros a se tornarem fãs. 

Sua moda descartável e barata passa a interessar a diversos públicos, desde garotas de classe média aos moradores do subúrbio nas grandes cidades, um ícone de massa, uma artista que nunca pertenceu a um só segmento. Durante sua turnê “Virgin” usa minissaias justas, ligas de lingerie, meias de renda pretas e uma infinidade de adereços nos cabelos e enfeites como luvas, braceletes e medalhões, festa do exagero.        

Suas constantes mudanças de identidade e imagem preconizavam a experimentação, a criatividade, o inconformismo e a rebeldia. O modo como Madonna usou a moda na construção de sua identidade deixou claro como a aparência e a imagem ajudam a criar o que somos ou pelo menos como somos percebidos. Foi quem melhor incorporou o espírito da mudança, a necessidade de oferecer novidades ao público a todo instante. Dançarina, musicista, modelo, atriz de cinema e de teatro, estrela de videoclipe, cantora, empresária. Os cabelos de Madonna mudaram do loiro platinado para o negro, para o castanho, para o ruivo e suas infinitas variações. Seu corpo magro e suave passou a esbelto e musculoso, rijo, sexualizado, corpo à mostra em performances lésbicas-sadomasoquistas, mutações culturais e estéticas ousadas para a época. 

Para entender o fenômeno Madonna, portanto, vamos além de sua voz e sua musicalidade. Em primeiro lugar porque propôs uma fusão entre música, dança e moda, criando uma imagem que lhe permitiu transitar por diversos ambientes. E principalmente porque Madonna nunca se percebeu apenas como intérprete.  É uma das maiores máquinas de relações públicas da história. Contratou os melhores agentes e publicitários, vendeu sucessivas imagens e, após seduzir o público adolescente, incorporou variados públicos ao longo do tempo. Lançou livros, filmes, clipes, discos, estrelou campanhas, capas de revista, protagonizou escândalos, ganhou prêmios.       

As imitadoras de Madonna proliferaram e ela logo virou uma referência. O “estilo Madonna” nos anos 80 e 90 invadiu os shoppings centers e lojas de departamento como a Macy que chegou a criar um setor específico chamado “madonnaland” para a venda de miniblusas, calças curtas e uma série de bijuterias e adereços. 

Além do público em geral, cantoras pop que vieram na sequência buscaram a ambiguidade, a ironia e o humor de Madonna presentes em muitos de seus vídeos e shows. No clipe Material Girl, por exemplo, Madonna mostra os homens como brinquedos dela, são tratados como acessórios e lacaios a quem ela comanda, subvertendo a lógica de dominação masculina.

 

Madonna foi uma representante da filosofia da mudança, mas em sua primeira fase, até 1987, foi sobretudo um ícone sexual.  A diva que esse ano faz 60 anos frequentou os sonhos eróticos de uma geração inteira, influenciou estilos e embalou beijos! 

Para finalizar, vamos relembrar o comeback épico dela com “Bitch I’m Madonna

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