Colunas | Publicado por Beatriz Carlos em 11 de agosto de 2018.
As Bandas Que Ouvi Por Aí: Jimmy Andrade, do quarto para o mundo

Foto: Rafael Pimenta

Conhecer bandas novas ou mesmo um artista solo, que realmente nos faça ficar envoltos em suas histórias, pode ser uma tarefa difícil em meio a tantas informações. Porém, estamos aqui para te ajudar nessa missão! Toda semana apresentaremos a vocês diferentes artistas do cenário independente que assim como nós vocês precisam ouvir. Hoje vamos falar do produtor, cantor e compositor, Jimmy Andrade.

Todo artista sonha em gravar suas composições. Entretanto, esse é um desejo que pode custar caro, gravar uma música exige, além de dinheiro, tempo e dedicação. Os arranjos devem estar prontos, os músicos preparados e o conceito bem definido.

Discos como “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” dos Beatles, “The Stranger” do Billy Joel e “Dois Quartos” da cantora Ana Carolina, passaram por longos processos de produção nos quais foram discutidos deste à parte lítero-musical até aspectos técnicos correspondentes a gravação.

Toda via, com a democratização do áudio, gravar músicas ficou muito mais fácil, pois, atualmente, é possível adquirir equipamentos por um baixo custo e com qualidade de áudio aceitável. O problema é que nem todos estão dispostos a fazer todo o trabalho com as próprias mãos.

Nós já falamos sobre artistas que começaram no YouTube, em festivais de canção, tocando em bares e até mesmo em batalhas de rima, entretanto nenhuma das bandas que ouvimos por aí começaram como especialistas em áudio.

Há 12 anos atrás Jimmy Andrade, nascido Paulo Henrique Andrade Mota, em Minas Novas no interior de Minas Gerais, já realizava suas primeiras gravações. O artista optou por não esperar à mercê das grandes gravadoras, decidiu desbravar o mundo da produção fonográfica de forma totalmente autodidata e hoje conta com 3 álbuns, 2 EPs, 7 singles e 1 single duplo lançados.

Aos fãs de Helio Flanders­, Jay Vaquer e Jhonny Hooker, Jimmy Andrade é o artista que lhe faltava.

Assista ao clipe de “Dúvida”:

Quando criança era tímido, introspectivo e extremamente nerd. Passava a maior parte do tempo em seu quarto desbravando o mundo da informática. Não demorou muito para que ganhasse a fama de “menino do computador”.

Apesar da dificuldade em desconstruir essa imagem na cabeça das pessoas, foi um período muito importante para sua vida, afinal toda dedicação lhe rendeu conhecimento suficiente para começar a realizar gravações caseiras.

O Começo

“Em 2005 eu me tornei amigo de uma banda de rock, e propus que eu produzisse o CD pra eles. Eu cuidei da gravação. Era tudo muito caseiro, mas o resultado final ficou bom. No meio de uma das gravações eu comecei a cantarolar “Te Devoro” de Djavan e os meninos ficaram impressionados com minha voz, porque ela era “diferente”. Então um deles assumiu a cadeira do estúdio e eu fui pra dentro da cabine, e gravei “Te Devoro”. Eu comecei a me empolgar com produção musical, mas por pressão da minha família, me mudei pra Diamantina pra fazer faculdade. Eu fui teoricamente “proibido” de “mexer com música”. Não adiantou. Um dia um vizinho me ouviu cantando no banheiro (eu sempre fazia isso) e minutos depois me chamou. Começamos uma amizade, ele me apresentou muitas músicas, e quando eu vi, estávamos compondo juntos. Saiu “Nada A Dizer”, minha primeira composição. Ele e eu nos unimos a mais amigos, e montamos uma banda de pop rock, onde cantávamos músicas de outros artistas. Um ano depois, fiquei insatisfeito com o fato de não ter espaço pra cantar músicas minhas e deixei a banda. Comecei a gravar músicas de forma caseira e, entre 2008 e 2009, lancei um EP caseiro com cover e algumas composições chamado “Eletroacústico” (não existe mais na Internet, felizmente). Depois regravei algumas músicas desse EP e lancei o “Introspecto”, que era totalmente autoral. Em 2007 eu gravei uma música chamada “Marcas” junto com um amigo, e ficamos “famosos” em Minas Novas por ela, mas só lá mesmo (risos). Entre 2009 e 2010 eu comecei a fazer meus primeiros shows lá em Diamantina. Em 2011 gravei o “40 minutos”, primeiro álbum que eu considero oficial (mesmo assim caseiro). Por causa dele fui convidado a trabalhar numa produtora, e fiquei uns 2 anos sem trabalhar com minhas músicas. Eu só produzia e gravava jingles, e cantava em uma banda de baile. 2013 e 2014 com a chegada do Rdio (uma plataforma de streaming que era o Spotify da época) e da iTunes Store, lancei dois singles para essas plataformas.”

Saiu da faculdade com a certeza de que seu caminho seria a música?

“De alguma forma sim. Mas eu entendia que precisava manter um emprego na tecnologia pra conseguir ter dinheiro pra financiar esse sonho. Mudar de cidade e ir direto pra música, na minha cabeça, não funcionaria. É isso envolvia um pouco de medo também. Eu entendi que poderia assumir a música como profissão e continuar trabalhando com tecnologia. Hoje eu procuro administrar ambas as carreiras. Eu trabalho no time de Produto da Tracksale, uma startup de tecnologia daqui de BH.”

Gêmeos com ascendente em Touro

“Eu brinco dizendo que o Paulo Henrique (meu nome nos documentos) e o Jimmy Andrade são duas pessoas bem diferentes. O Paulo Henrique, inclusive, talvez tenha deixado de existir. Ele era uma pessoa muito introspectiva, fechada, séria. Minha mãe gostava de falar que eu era “sistemático”. Ter me entendido como gay e assumido minha verdadeira existência trouxe, junto com isso, uma vontade de ser livre, de colocar meu sonho pra funcionar, de ganhar e dar carinho às pessoas. E aí quando eu me tornei o Jimmy Andrade, a numerologia disse que o nome reflete uma pessoa carismática. Eu diria hoje que o Jimmy Andrade é uma pessoa carismática, comunicativa, ancorada em empreendedorismo criativo, liberdade e autonomia. Eu sou bem-humorado, apesar de eu ter alguns momentos meio deprimidos e eu ser uma pessoa um pouco difícil de lidar em algumas situações. Eu tenho um apelido muito fofo entre meus amigos: “Satanás”. Ao mesmo tempo, eu sou muito teimoso e ambicioso (no mau sentido e no bom, mas às vezes quero abraçar o mundo, mas sou apaixonado pelo que faço), mas eu tenho trabalhado muito isso. Resumindo: sou Gêmeos com ascendente em Touro, lua em Aquário. Não é tão ruim assim (risos).”

Influências

“Eu tenho uma influência muito forte dos Beatles, não somente por causa do som em si, mas por causa das técnicas de gravação, de construírem álbuns conceituais. Eu os considero os pais da música pop que a gente conhece hoje. Em 2009, eu havia estudado a fundo sobre a história deles, e sobre todas as inovações que eles e o pessoal do Abbey Road Studios trouxeram ao mundo da produção musical. Eu também me inspiro muito em Panic at the Disco. Amo o fato deles terem misturado rock, pop e eletrônica no primeiro disco, “A Fever You Can’t Sweat Out”, e logo depois, beberem das águas do folk e country no “Pretty. Odd.”. Eu lembro que eu assistia a todos os vídeos possíveis sobre o processo de gravação do segundo álbum deles, e ficava me imaginando ali, gravando a guia de violão que nem o Ryan Ross fazia. Na época, eu não gravava em estúdio e nem trabalhava com produtor. Então, muita coisa ficava na imaginação (risos). Mas eu tenho muitas influências brasileiras também. Jay Vaquer é a primeira delas, um cantor e compositor incrível, autêntico, vaidoso (no bom sentido) sobre sua arte. Ele infelizmente não é muito conhecido aqui no Brasil, e eu fico indignado com isso. Eu já tive a honra de assistir ao show do Jay no dia do meu aniversário, numa casa de shows em São Paulo, e ficar literalmente de frente pra ele no palco. Ele no meio de uma música, até brincou comigo e me cutucou com um pedestal (risos). Muita gente diz que meu trabalho lembra o do Jay em alguns álbuns dele, e eu gosto disso. Eu não o conhecia e, quando isso aconteceu, notei algumas coincidências. A própria semelhança dos nomes, Jimmy e Jay. Outra influência forte é a Ana Carolina. Eu amo essa mulher e posso dizer que conheço a discografia inteira. O fato dela ser compositora, mineira, bissexual, ter uma voz única, as suas letras e a forma como as canta: eu arrepio com o trabalho dela. E eu ouço Ana Carolina desde criança, por influências de uma tia, chamada Flor de Maio, que é poetisa e artista plástica. A arte, inclusive, sempre esteve muito perto de mim desde criança. Do mais, em termos de letra e melodia, eu já percebi muita coisa que me inspirou em Móveis Coloniais de Acaju, Clube da Esquina, Paulinho Moska, Los Hermanos, A Banda Mais Bonita da Cidade, Beeshop (trabalho solo do Lucas, vocalista do Fresno), a carreira solo da Sandy – e ao mesmo tempo – as divas Lady Gaga (principalmente o Artpop), Beyoncé (pela forma como dirige sua própria carreira) e eu arriscaria dizer que, quando eu era criança, eu peguei muita coisa dos universo dos anos 80, 90 e início de 2000, como Xuxa e Sandy & Junior, Br’oz e Rouge. Minhas influências são uma salada agridoce (risos).”

Se preocupar com a estética ou deixar fluir?

“Eu geralmente deixo fluir, mas sempre procuro começar por um tema. Eu vou escrevendo à medida que imagino a letra, mas quando eu termino eu procuro revisar o que eu escrevo pra garantir que aquela música vai respeitar o tema que eu imaginei. Falando mais sobre meu processo de composição hoje: muitas coisas eu cheguei a comentar quando escrevi um artigo para o LANDR (uma startup canadense de masterização de músicas), mas, basicamente, eu não me forço a escrever uma letra. Eu preciso de um sentimento bem forte, seja bom ou ruim, para querer escrever uma música. E, geralmente, eu escrevo em momentos mais tristes – mesmo quando o mood da música acaba sendo mais “pra cima”. Uma coisa interessante sobre meu espaço de criação é que, durante um bom tempo, eu comecei a criar muitas músicas enquanto caminhava na rua. Inclusive, eu adoro ir a pé para meus trabalhos diurnos, e criar músicas nesse trajeto era legal porque, se a letra ou a melodia fossem fortes o suficiente para que eu quisesse registrar, assim que eu chegava no destino eu escrevia em um papel ou me mandava por e-mail. A tecnologia hoje ajuda um pouco, porque eu posso gravar alguns trechos das músicas, mas eu ainda gosto da parte escrita, principalmente quando a letra “canta” a melodia pra mim.”

Ouvimos todas as canções do compositor Jimmy e podemos afirmar que o seu repertório é uma verdadeira caixinha de surpresas. Apesar de suas letras possuírem narrativas bem próximas, ligadas ao universo do homem gay, a diversidade de suas influências e sua paixão pela produção musical e engenharia de áudio fez com que se tornassem evidentes os diferentes experimentos realizados a cada lançamento.

Muitos de vocês serão levados de volta aos anos 2000 quando ouvirem o álbum “40 minutos”. As 10 canções que compõe o disco estão ligadas ao pop rock nacional de quase 2 décadas atrás, bem próximas ao trabalho feito pelo cantor e compositor Jay Vaquer.

Em 2016 lançou seu terceiro álbum intitulado “Entre o Não e o Querer” que varia entre arranjos experimentais e a música pop. A canção “O Crime”, um grande hit da carreira de Jimmy, é a quarta faixa dentre as 10 canções que compõe o disco.

Foto: Mariane Botelho

Quebrando os padrões                                         

“Uma coisa legal das minhas músicas é que nem todas respeitam a estrutura comum do “verso, refrão, verso, refrão, ponte, refrão”. Eu deixo fluir, porque entendo que uma música é uma narrativa, e ela não deveria ficar presa a um padrão só. Pode funcionar comercialmente, mas tira a essência do artista. E se tem uma coisa que eu não quero perder nunca é a essência e a autenticidade do meu som.”

Cover vs Autoral

“Eu até faço alguns covers às vezes, e eu fiz muitos quando eu comecei, lá em 2007. Na minha banda, inclusive, a gente só tocava cover. Mas eu decidi seguir o caminho mais difícil – porém muito prazeroso – que é trabalhar pra fazer as pessoas conhecerem o meu som. Muita gente me pergunta “por que você não investe em covers pra fazer sucesso e depois apresenta às pessoas suas músicas”. A questão é que eu tenho quase 200 composições, entre coisas minhas e parcerias (juro). Só das que eu lancei, incluindo o Introspecto (que eu tirei de circulação, mas pretendo relançar – estou te dando essa notícia em primeira mão haha), eu acho que eu já lancei quase 40. Se eu continuar o ritmo de um lançamento a cada 2 meses (eu tenho lançado uma música todo dia 27 de mês ímpar), eu tenho músicas por mais 16 anos haha. Não vale a pena pra mim, esperar pelo “sucesso” chegar, eu quero construí-lo com minhas próprias mãos. Ou melhor, com minhas próprias letras e canções 🙂 essa é a glória de ser independente e autoral.”

Como encontrou o seu público?

“Eu comecei entre minhas rodas de amigos, e fidelizando essas pessoas para que elas indicassem meu som para as amigas delas. Eu fui seguindo essa técnica durante muito tempo, porque eu ainda me via como um artista que fazia um som caseiro. Quando eu fazia shows no interior, meu público era muito pequeno, e uma pessoa amiga levava no máximo uma ou duas pessoas. Depois que eu assinei com a ONErpm (a distribuidora do meu som nas plataformas) comecei a apostar em levar minhas músicas – agora já com a qualidade técnica aceitável – para Playlists no Spotify, por exemplo. Uma coisa que mudou é que, lá em 2008, 2009, a música de artistas “under thousand” na Internet tinha até chance de se espalhar de forma mais rápida, porque eram menos artistas e bandas entendendo das plataformas, e as pessoas usavam menos a Internet como hoje. Então existia uma densidade maior. Ao mesmo tempo, não existia um alcance. Antigamente eu tinha o péssimo hábito de lançar uma música e esperar que as pessoas chegarem até mim pra conhecer. Hoje eu faço o oposto: eu faço um trabalho de prospecção, praticamente. Eu vou atrás do meu público (que, inclusive, tem personas bem definidas) e apresento meu som. E já fiz isso usado patrocinado no Facebook, Instagram, mas hoje eu expandi um pouco. Eu mando mensagem direta para as pessoas e a taxa de conversão é alta (risos). Sempre que vou a DDuck, uma boate daqui, acabo cantando uma música minha, e as pessoas me procuram depois pedindo o link dela. Eu entendi que o negócio é “atirar para (quase) todos os lados”, no sentido de divulgar meu som online mas off-line também. E esse off-line eu comecei a fazer mais recentemente aqui em BH.”

Qual seu trabalho mais novo?

“É “Um Plano”, que foi um single que eu lancei no dia 27 de junho (mês passado). O Luã, inclusive, foi quem produziu e arranjou a música, e ele diz que foi uma das produções que mais gostou de fazer até hoje. Ele chegou a gravar um vídeo no YouTube desconstruindo todo o processo de produção da música. Quem é da área de produção musical adora saber dessas coisas. Eu me senti homenageado (risos).”

Da Internet para os Palcos

“A turnê que eu começo agora, com a estreia na @bsurda, neste sábado (dia 4), e depois um pocket show no dia 15, em um festival da Savassi, e meu show dia 25, em Curitiba, são um marco histórico pra mim. Eu acho que vou oficialmente virar a chave do ‘artista de Internet’ para ‘artista que veio da Internet e agora está nos palcos’.”

O Segundo Show em Belo Horizonte

“Quinta-feira, dia 15, eu faço meu segundo show em BH. Ele vai ser em um festival chamado Circuito Movimento, que vai ter sua primeira edição aqui em Belo Horizonte. Além de mim, outros artistas irão se apresentar. Vai ter gastronomia, música, moda. E o evento está focando no público LGBT.”

O que os fãs podem esperar de você nos próximos meses?

“Eu vou me segurar para dar muitos spoilers, mas eu posso dizer que podem esperar mais shows. A partir de agosto ou setembro, terei novos singles pelo menos a cada 2 meses. Além disso, já tenho 3 parcerias em aberto com artistas LGBT daqui de Belo Horizonte. Até a parada LGBT do ano que vem, eu espero estar com meu álbum lançado. Agosto está sendo um mês incrível, por causa dos shows e de tantas oportunidades surgindo, e eu sinto que, além de ter virado a chave do online para o offline, eu consigo sentir que, agora a minha carreira avança

Após 12 anos se dedicando a criação e produção do seu repertório, Jimmy sairá de seu quarto para dar início a sua primeira turnê. O primeiro show aconteceu no último sábado dia (4) na @bsurda, foi o primeiro de muitos que ainda estão por vir. Nós nos sentimos honrados em poder contar a história de um artista tão talentoso e completo. É gratificante ver alguém que veio lá do interior de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, conquistar o que sempre sonhou.

Que o mundo esteja preparado para você, pois ele é seu!

Ouça a discografia completa no Spotify:

 

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