As Bandas Que Ouvi Por Aí: A autêntica podreira musical de Don Ramón - Palco Pop
Colunas | Publicado por Beatriz Carlos em 4 de Maio de 2018.
As Bandas Que Ouvi Por Aí: A autêntica podreira musical de Don Ramón

Foto: David Gastardon

Conhecer bandas novas ou mesmo um artista solo, que realmente nos faça ficar envoltos em suas histórias, pode ser uma tarefa difícil em meio a tantas informações. Porém, estamos aqui para te ajudar nessa missão! Toda semana apresentaremos a vocês diferentes artistas do cenário independente que assim como nós vocês precisam ouvir. Hoje vamos falar da autêntica podreira musical de Don Ramón.

Existe uma grande quantidade de gêneros e subgêneros musicais. Muitos desses são desconhecidos pelo público em geral e são reconhecidos por nichos como é o caso do trashcore e grindcore, sendo que os dois tem características próximas com o uso de guitarras e baixos distorcidos, rápidas levadas de bateria, e vocais scream/gulturais.

Quando me mudei para Tatuí, interior de São Paulo, no segundo semestre de 2016, tive a oportunidade de me conectar com novos nichos musicais, como os que são formados pelos gêneros citados anteriormente. Um dos principais “culpados” pela minha descoberta tem nome, endereço e uma banda incrível que vocês precisam conhecer.

Arthur de Oliveira Gomes mais conhecido como Artie é cantor, compositor, produtor musical, engenheiro de áudio, mixagem e masterização, diretor de filmes e curta metragens e claro: a pessoa com a melhor memória desta galáxia. Sério, não tem um filme que essa criatura não saiba todas as falas, o nome de todos os atores e principalmente dos dubladores, sem contar a trilha sonora, diretor e até mesmo o nome da tia da limpeza deve saber. É sinistro!

Além de tantas qualidades artísticas e “memorísticas” possui um entusiasmo gigante que lhe faz sempre pronto para o que der e vier. Em uma dessas acabou entrando em uma banda que mais tarde se tornaria uma parte muito importante e especial em sua vida. Com o apelido carinhoso de Madruga, assim como o personagem, a banda Don Ramón passou por dificuldades, mudanças, mas também muitas alegrias. Tudo isso você confere agora, nesta matéria da pesada!

Aos fãs de Ratos de Porão, Mukeka Di Rato e Helmet, Don Ramón é a podreira que lhes faltava.

Assista ao clipe de “Paranóia em Vida”:

O começo

É engraçado pra caralho me perguntarem sobre o começo do madruga, porque eu fui um dos últimos que entrou quando a banda se formou, mas vamos lá: Antes do Don Ramón ser o Don Ramón, se chamava “Toupeiras de Cassandra” e era composto pelo Lizardo, pelo Paulo, um camarada deles, o Du, e duas minas. Nessa formação, só rolou uma gig no final de 2011 na Praça do Côco (no distrito de Barão Geraldo, em Campinas). Depois disso, uma das minas saiu e é aí que eu entro na história. Eu tava sem banda na época e todas as tentativas que apareciam, davam em nada. Um dia, olhando timeline de facebook, tinha uma amiga minha dizendo que tinha uma banda que tava precisando de vocalista. Respondi o anúncio e fui fazer o teste… Foi uma merda, porque fazia muito tempo que eu não cantava e não sei porque cargas d’água, os meninos gostaram (tá disponível no YouTube pra quem quiser ver) e eu entrei pra banda! Obviamente, o nome não ia ser mais Toupeiras de Cassandra. Todo mundo ficou um tempo pensando em nome novo, daí eu tava voltando pra casa depois de ensaio e veio uma porrada de nome de banda de powerviolence na cabeça, como o Jello Viagra e a Derci Gonçalves. Como o objetivo era ser uma banda de grindcore e coisas do tipo, eu acabei batizando de Don Ramón.”

De Toupeiras de Cassandra a Don Ramón

“Já como Don Ramón, a gente começou a compor, mas no meio do caminho, ficamos sem baterista e até o final de 2012, quando o João Cavera (do Reptilian Kids) assumiu as baquetas, rolaram duas gigs no mínimo curiosas: a primeira foi numa escola particular, pra um monte de pais e mães que ficaram horrorizados com aquele bando de moleque tocando o terror de cima do palco. Já a segunda foi em “caráter oficial”, junto com um monte de banda de hardcore de São Paulo e interior paulista e quem tocou bateria no dia foi um mano chamado Biléu Sousa, que tinha tocado comigo um tempo antes, veio a ser baterista do Lagostas Inflamáveis e foi o cara que gravaria material novo da formação atual do madruga anos depois. Essa segunda gig rendeu pra gente 60 reais, o suficiente pra ir num estúdio e gravar o que virou a nossa primeira demo, Bunda Suja. Daí, como eu falei, a gente conseguiu um baterista, mas dali em diante, o Don Ramón virou um quarteto e permanece assim até hoje. Com essa formação (Eu, Lizardo, Paulo e o Cavera), a gente gravou o nosso primeiro disco, Fat Boy Strikes Again, feito com 600 conto e uma puta cara de pau. Deu certo e todo mundo soube quem era a gente por causa desse disco.”

Saindo do anonimato

“A gente fez o Fat Boy Strikes no começo de 2013 e lançou no dia 15/04/2013, muita gente que ouviu na época, desde pessoas envolvidas na cena de campinas até jornalistas locais, abraçaram a ideia e acharam aquilo uma puta coisa genial, tanto que teve uma entrevista que eu dei para um fanzine de Itatiba, o canibal vegetariano, que eu fui categórico em afirmar que eu não entendia o porquê de todo mundo ter curtido um disco que basicamente tinha sido feito a troco de pinga por um bando de muleque inexperiente que só estava falando besteira.”

O disco “Fat Boy Strikes” possibilitou com que a banda obtivesse um reconhecimento inesperado. As guitarras distorcidas e os guturais chamativos faziam parte de uma verdade intrínseca a cada membro do grupo. A personalidade forte e o verdadeiro botão de “foda-se” ligado fez com que o calor e energia dos jovens campineiros ultrapassassem os limites esperados.

O álbum despertou o interesse do público paulista viabilizando a banda uma turnê de nove shows pelo estado de São Paulo ao lado da banda Zumbi Radioativo. Além da turnê o disco possibilitou a participação da banda em festivais como o AutoRock de Campinas e a Virada Cultural de Limeira, fechando com chave de ouro tiveram ainda a oportunidade de ser backliners de bandas já consagradas tais como Muzzarelas e os Zumbis do Espaço.

Em 2016, Don Ramón lança seu segundo álbum de estúdio intitulado “21st. Century Reckoning Day”. Assim como o nome, as letras falam sobre acerto de contas, porém apesar de ter algumas referências veladas a política o acerto de contas refere mais a algo pessoal e social, diz respeito a todas as cargas negativas com que lidamos diariamente.

A primeira track do disco “Uvb-76” possui um arranjo que poderia ser tranquilamente usado em uma cena de filme ou serie. Quando fechamos o olho é como se estivéssemos dentro de um filme de ação no exato momento em que algo desastroso aconteceu. Segundo o cantor e compositor Artie Oliveira, as falas são de uma rádio russa e uma drum machine foi usada para simular tiros de metralhadora. A segunda faixa do disco, assim como as demais, continua a construção de um contorno emocional de forma linear sem que se perca o nexo ou contexto com a faixa anterior.

O Segundo Álbum

“O 21st Century Reckoning Day foi muita coisa para o Don Ramón, tanto pro bem quanto pro mal. A gente começou a pensar em fazer um disco novo no final de 2013, já se planejando para conciliar agenda de shows no ano seguinte e coisas do tipo, só que logo que rolou a primeira gig do ano, aconteceu do João machucar as costas, o que para ele gera uma puta recuperação lenta pelo fato dele ser hemofílico. Foi mais do que necessário nós quatro segurar a mão em circular por aí, o que não impediu de continuar compondo para esse disco novo que veio a ser o Reckoning Day. Ele foi gravado pelo Rogério Guedes (mais conhecido como Mad Dog e que foi operador de som do Tolerância Zero na época do Ninguém Presta, além de ter feito tudo o que o Magüerbes lançou de 1999 até 2005) em Barão Geraldo, no primeiro endereço do Canil Pró-Áudio. O processo de gravação foi a junção de tudo o que tem de mais legal e horrível de se entrar em estúdio ao mesmo tempo: por uma série de razões, só a bateria do disco demorou exatos oito meses pra ser concluída, o que contribuiu pro clima entre a gente não ser dos melhores na feitura do disco e culminou na saída do João faltando três músicas pra terminar a parte de percussão. Quem segurou a bronca e terminou o lance foi o Marcel Lobizomi (Muzzarelas, Derrota, Footstep). Depois disso, virou festinha e toda sessão ficou agradável, por mais estranho que isso soe. A parte boa do Reckoning Day, apesar do conteúdo do disco refletir bem o que estava acontecendo com a banda na época, foi o fato de pela primeira vez, material nosso ganhar as plataformas de streaming, o que rendeu resenha em site francês e execução em rádios dos Estados Unidos, Espanha e França, fora a porrada de links pra baixar e notas em sites de Metal/Hardcore pelo mundo inteiro. Com todos os atrasos e percalços na produção, em 21/04/2016, mais conhecido como o dia em que executaram o Tiradentes, nosso segundo disco, 21st Century Reckoning Day, viu a luz do dia em formatos digital e físico.”

Hoje em dia a banda é formada por Artie Oliveira no vocal, Pedro Lizardo nas guitarras, Paulo Carvalho no baixo e Bruno Vinícius na bateria. As influências do hardcore são fortes e caracterizam grande parte do som da banda!

Como vocês se veem frente ao cenário musical atual?

“Uma coisa é certa: O Don Ramón nunca vai ser banda de alcance massivo, no máximo de nicho, o que eu sinceramente acho que em seis anos, a gente conseguiu um lugar ao sol no meio de tanta banda importante ontem e hoje para o underground. Tem muita mulecada que se inspirou na gente e fez banda do mesmo jeito que nós seguimos ou pelo menos tentamos seguir o que os Muzzarelas fizeram e fazem desde 1991. Se for pra pensar no geral, eu não tenho problemas com o que tá circulando no mainstream brasileiro, afinal tem nada a ver com o tipo de som que o madruga faz. A única parada que eu sei e digo é que logo mais vai vir um terceiro disco e logo menos, um split EP com o Baby Boom (também de Campinas). Temos seis anos de idade como banda, uma porrada de shows feitos, muita amizade construída no meio do caminho, o respeito de muita gente que é importante pra nós quatro e o mais importante: um monte de história contada em forma de agressão sonora do jeito mais verdadeiro possível.”

Novos Projetos

“Hoje, ao contrário de seis anos atrás, ficou um pouco mais difícil de todo mundo se reunir pra ensaiar/compor coisa nova pelo fato de que metade da banda trabalha pra caralho e quase não tem horário livre e a outra faz faculdade. Mesmo assim, o madruga nunca parou e o lance da gente fazer dois festivais na sequência (Grito Rock e Aproveite bem seus Finais de Semana) fora o split que tá a caminho com duas músicas novas deu um ar fresco que a gente precisava pra sentar e se planejar pros próximos meses em todos os aspectos, de shows a material novo.”

Que a música de vocês continue abalando as estruturas desse país. A podreira não pode parar!

Ouça o álbum 21St Century Reckoning Day no Spotify:

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