Colunas | Publicado por Beatriz Carlos em 13 de abril de 2018.
As Bandas Que Ouvi Por Aí: A fricção cultural nas composições de Marcos Expósito

Conhecer bandas novas ou mesmo um artista solo, que realmente nos faça ficar envoltos em suas histórias, pode ser uma tarefa difícil em meio a tantas informações. Porém, estamos aqui para te ajudar nessa missão! Toda semana apresentaremos a vocês diferentes artistas do cenário independente que, assim como nós, vocês precisam ouvir. Hoje vamos falar da  fricção cultural  nas composições do compositor e contrabaixista, Marcos Expósito.

O ano de 2017 trouxe muitas coisas boas. Dentre tantas, uma descoberta musical que nunca esquecerei. Fui convidada por alguns amigos a ir em um recital de formatura no Conservatório de Tatuí, não sabia ao certo o que seria, apenas me disseram que um baixista muito talentoso estava se formando e que eu não poderia perder sua apresentação.

Existem algumas situações em que todo mundo reage da mesma forma como, por exemplo, quando escutamos uma música incrível e rapidamente anotamos um pedaço da letra ou gravamos com o celular. Naquele momento se tem a certeza de que mais tarde, durante a semana, o mês, o ano e provavelmente para o resto da vida vamos querer ouvir aquele som.

Foi exatamente assim que reagi quando ouvi a primeira música no recital do contrabaixista Marcos Expósito. Naquele momento eu apenas rezei para que meu celular, que estava à beira da morte, não parasse de gravar enquanto Marcos e sua banda não terminassem. Para minha sorte ele registrou todo o espetáculo, então, eu pude voltar para casa e repetir a dose.

Aos amantes das raízes latino-americanas, que amam músicas instrumentais, Marcos Expósito é o nome que faltava em sua lista.

Assista ao clipe de “Memorias”

Marcos Expósito Nadruz nasceu em Montevidéu, capital do Uruguai. Devido à forte influência de sua família, repleta de músicos aficionados, começou a frequentar o candombe, cultura de tambores muito importante em seu país, e ouvir músicas do repertório erudito, como as de Vivaldi, que ele pedia para seu pai colocar para que ele pudesse dormir.

O Começo

 “Eu sempre pedi para o papai Noel uma bateria, mas ele nunca trazia (risos), meus pais sempre sem grana, então, não dava. Mas quando eu fiz oito anos comecei a fazer aulas de tambores de candombe que eu ia junto com meu pai. Ele também já havia me passado os primeiros acordes no violão e cantávamos algumas músicas. Quando fiz 12 anos comecei a tocar saxofone tenor, mas era um instrumento muito caro, então, pensei que o outro instrumento que queria aprender era o baixo. Como era um instrumento mais em conta comecei a estudar e meus pais compraram um baixo elétrico. Daí comecei minha paixão.”

Do Uruguai para o Brasil

“Quando terminei o colégio, pensei que deveria fazer uma faculdade e só queria tocar música. Não tinha conservatório de música popular aqui, pelo menos naquela época, então, comecei a procurar o que era mais parecido com o que eu já fazia e uma amiga me falou do contrabaixo acústico, eu fiz uma aula e me apaixonei. Cheguei na sala de aula e o professor estava tocando umas músicas do Beethoven com o arco. Eu nunca vou esquecer desse momento, foi paixão à primeira vista. Eu comecei a fazer aulas, entrei na universidade e fiz dois anos, mas aqui a universidade pública é de música erudita e eu queria estudar música popular. Através de uma musicista incrível que conheci no festival Jazz La Calle, Joana Queiroz, fiquei sabendo de um conservatório em São Paulo, na cidade de Tatuí. E lá fui, com outros amigos. A gente foi pra lá sem saber de nada, quem eram os professores, como era o sistema, como era a cidade. A gente foi lá na confiança de que o caminho era por aí. Eu sempre amei música brasileira eu era muito fã de Arthur Maia, Thiago Espirito Santo, Arismar, essa pegada de baixista. Sempre amei o swing brasileiro.”

O contrabaixo acústico na música popular

“Eu continuava com a ideia de fazer contrabaixo acústico, mas cheguei em Tatuí e vi que não tinha na carreira de música popular Brasileira e jazz, então comecei segui a carreira de contrabaixo erudito que eu já estava estudando na faculdade e tinha uma segurança legal. Dentro disso, conversando com as pessoas que estavam na secretaria do Conservatório, decidiram eles, a partir do meu pedido e de outro contrabaixista, abrir uma vaga para contrabaixo acústico com o Felipe Brisola que já era professor de baixo elétrico. Fui o primeiro aluno a entrar e o primeiro a se formar. Uma honra que guardo para mim.”

Para minha sorte – e a de todos os leitores do palco pop – as músicas que ouvi durante o recital de formatura foram gravadas, no mesmo ano, em estúdio. O primeiro disco do projeto “Marcos Expósito Grupo” titulado “Ñande” é realmente de tirar o fôlego. As músicas desenvolvem sensações que são proporcionadas pela dinâmica instrumental entre a mistura de percussões (Estefano Lovato e Rafael Chieffi), piano (Samuel Cartes), guitarra (Gabriel Bertoul), bateria (Gastón Reggio), voz e percussão (Lucía Spivak) e claro, o motivo do disco, o contrabaixo de Marcos Expósito.

A primeira faixa do disco, “Pro Rei Da Floresta”, se inicia com o som de galos. A paisagem sonora foi gravada em uma alvorada na aldeia Guarani localizada no litoral norte em Bertioga. Batizado pelo Page, o compositor é chamado de Jekupé. Com o desenvolver da música temos um canto para Oxossi, orixá conhecido por ser o rei das matas, e a mistura de ritmos como o forró e maracatu.

Devido também a sua paixão pelo som do arco no contrabaixo e a mistura de linguagem da música erudita com a música popular, Marcos queria que o arco do contrabaixo tivesse protagonismo, então, em várias músicas fez com que ele se destacasse, como na segunda faixa “Canción de cuna para noches de luna llena” que é toda com arco e conta com improvisos de arco. A música Montreux, releitura de uma canção do artista Hermeto Pascoal, também foi feita inteiramente com arco e inclui um improviso de contrabaixo acústico.

Segundo o compositor, as principais influências do disco são  Joana Queiroz, Ramiro Mussoto, Shai Maestro e o escritor uruguaio Eduardo Galeano.

O Álbum

“Com esse disco eu tentei incluir todas as minhas influências que são de origens muito diversas. Eu sou muito latino americanista, eu amo muito ritmo, as raízes que tem dos ritmos daqui. A mistura é o conceito mais puro que existe, então, eu amo isso na américa do sul que tem uma mistura incrível de cultura, identidades e histórias, e isso se transpõe nos ritmos que a gente tem na américa latina inteira. O disco tenta ser um disco de música instrumental latino-americana, aceitando as harmonias europeias, mas sempre com uma raiz sul américa, desde o ritmo, desde a concepção, desde o espírito que é o mais importante.”

Conheça mais sobre o projeto “Ñande”

 

Novos Projetos

“Estou preparando um novo disco a duo com o guitarrista Diego Cotelo que vai sair esse ano.”

 

Que sua música continue causando sensações. Por onde passar, você será força!

 

Ouça o álbum completo no Spotify.

 

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